INTERGOVERNAMENTALISMO
LIBERAL
O objetivo do artigo de
Moravcsik é reformular a teoria liberal de RI para uma forma não utópica, que
seja empírica. A teoria liberal prega que as relações estado-sociedade tem um
impacto fundamental no comportamento do Estado nas políticas mundiais. As
ideias da sociedade e seus interesses influenciam o comportamento dos Estados
ao moldar suas preferências. Para o autor, a teoria liberal deve ser tratada da
mesma forma que as teorias realistas e institucionalistas, pois para este o
liberalismo é constantemente ignorado sendo “acusado” de utópico, normativo e
ideológico. O autor, a seguir, mostra algumas criticas que foram feitas ao
liberalismo: “deveria ser considerada uma abordagem e não uma teoria em si, devido
ao fato que suas proposições não poderem ser deduzidas de seus pressupostos”.
Moravcsik propõe uma série
de pressupostos que mostrarão que a teoria liberal pode ser sim pensada de
maneira positivista e empírica através da analise da centralidade das relações
estado-sociedade. Ele então elabora três variantes da teoria liberal:
Liberalismos ideacional, comercial e republicano.
Depois o autor mostra
que a teoria liberal possui sim método e empirismo através de quatro critérios:
Uma teoria deve ser geral – em que
ele mostrará que o liberalismo é uma teoria geral que liga RI com outras áreas.
Deve ser rigorosa e coerente. Deve
mostrar precisão empírica e deve
mostrar consistência multicausal.
Pressupostos
básicos da teoria liberal de RI
1- A primazia dos atores estatais – Os atores fundamentais na política
internacional são indivíduos ou grupos privados, que são, em média, racionais e
avessos ao risco que promovem seus interesses baseados nas restrições impostas
pela escassez de matéria e valores conflitantes.
A teoria liberal se
baseia em uma visão “bottom-up” em que as demandas dos indivíduos e grupos da
sociedade são analisadas com “mais prioridade” do que as das políticas. Os
indivíduos definem seus interesses independentemente da política, e após
definirem estes usam da troca política e da ação coletiva para alcança-los.
Eles agem racionalmente para perseguirem seu bem estar: material e ideal. Para
os liberais a definição dos interesses dos atores da sociedade é central. Eles
rejeitam a noção utópica de que existe uma harmonia de interesses entre
indivíduos e grupos na sociedade, onde a escassez de materiais e as diferenças
entre si levam a competição.
A teoria liberal tenta
generalizar sobre as condições em que o comportamento dos atores que convergem
em cooperação ou conflito. Diferenças irreconciliáveis de crenças sobre bens
públicos, fronteiras, cultura, praticas sociais, instituições políticas, levam
ao conflito, enquanto crenças complementares promovem harmonia e cooperação.
2- Representação e preferências dos Estados – Estados representam
conjuntos da sociedade doméstica e agem de acordo com os interesses destes.
Na concepção liberal de
políticas domesticas o Estado não é um ator e sim uma instituição
representativa dos atores sociais. A política governamental é então
constrangida pelos interesses e busca de poder dos indivíduos e grupos que
constantemente pressionam os tomadores de decisão a perseguir políticas que vão
de acordo com suas preferências. Nenhum governo é uma representação universal
onde em cada governo as preferências de certos indivíduos são mais representadas
do que as de outros. Segundo Moravcsik “Mesmo onde as instituições públicas são
justas e abertas uma relativa diferença de distribuição de propriedades, risco
e informação pode criar monopólios sociais e econômicos que serão capazes de
dominar a política”.
Instituições e práticas
representativas não apenas determinam quais as coalizões sociais serão
representadas na política externa, como também determinam a forma como eles são
representados. Esta forma pode ser unitária ou desagregada, em que diversas
áreas da política externa há uma forte coodernação entre oficiais do Estado e
políticos e, em outras esta pode ser desagregada, o que conduz a uma serie de
políticas externas semiautônomas que servem a interesses sociais diferentes. Esta
pode ser também estruturada de uma forma a se usar uma extrema racionalidade,
ou de maneira menos racional. Isto significa que os estados não fixam
automaticamente concepções homogêneas de segurança, soberania ou riqueza como
pregam os realistas e institucionalistas, estas são “funcionalmente
diferenciadas”, a natureza e intensidade de suporte nacional para qualquer
propósito do estado varia decisivamente de acordo com seu contexto social.
3 - Interdependência e o sistema internacional –
A configuração das preferências independentes do estado determinam o
comportamento deste.
Os Estados necessitam
de um propósito para provocar conflitos, promover cooperação ou mover qualquer
ação significante na política externa, assim cada Estado busca realizar suas
preferências de acordo com as restrições impostas pelas preferências de outros
Estados. A teoria liberal rejeita a suposição realista de que as preferências
estatais devem ser tratadas como naturalmente conflituosas e também a
institucionalista de que estas devem ser tratadas como parcialmente
convergentes.
O link entre as
preferências estatais e seu comportamento se baseia no conceito de
interdependência política, definida como o conjunto de custos e benefícios
criados pelas sociedades estrangeiras quando grupos dominantes nestas buscam
realizar suas preferências, “o padrão de externalidades resultantes das
tentativas de perseguir fins distintos nacionais.”. Onde as externalidades de
políticas unilaterais são ótimas para outros, existe um forte incentivo para se
coexistir com baixos conflitos; porém onde um grupo social dominante em um país
busca realizar suas preferências através da ação estatal de forma a
necessariamente impor custos aos grupos dominantes de outros países há um alto
potencial para tensões e conflitos. Assim a forma de cooperação ou não, depende
diretamente dos padrões de preferências, custos e riscos das partes.
Por fim o autor fala
que uma diferença entre os liberais e os realistas e institucionalistas é que
os primeiros se focam no que precede as ações enquanto realistas e
institucionalistas focam no “depois”. Ele explica isso com o seguinte exemplo:
o aumento dos gastos militares em resposta ao acúmulo de armas do adversário é
uma mudança de estratégia com preferências fixas consistentes com o realismo,
enquanto um aumento dos gastos iniciado por uma nova elite dominante
ideologicamente comprometida com o aumento de seus territórios é uma mudança de
preferência induzida, com uma estratégia condizente ao liberalismo.
A concepção liberal de
poder é baseada em uma suposição mais relacionada com as teorias de barganha e
negociação, uma vez que entre as preferencias do Estado encontra-se a busca por
expandir seus recursos. Dessa forma, o ato de barganha representa uma
preferencia estatal. A visão liberal sobre o poder político, assim entendido,
gera explicações plausíveis não apenas para questões de cooperação entre
nações, mas para uma ampla gama de fenômenos que são centrais nos estudos de
política mundial, que variam desde momentos de paz até as guerras brutais.
As três suposições
fundamentais do liberalismo (explicadas acima), separadamente não representam
muito. Estas suposições, no entanto,
apoiam três variações da teoria liberal, são elas: ideacional, comercial e o
liberalismo republicano. E cada um deles se apoia em especificações distintas
da teoria liberal. Nas demandas sociais, por exemplo, que são os mecanismos
causais por meio de que são transformados nas preferências estatais. O
liberalismo ideacional, portanto, foca na capacidade das preferencias sociais
legitimarem instituições políticas e regulações socioeconômicas. O liberalismo
comercial foca nos incentivos criados por oportunidades transnacionais de
transações econômicas. Por fim, o liberalismo republicano foca na natureza de
representações domésticas com o intuito de derivar renda econômica pela
manipulação do ambiente social e político. O autor especifica cada uma delas.
Implicações
mais amplas da Teoria Liberal
Para Moracvisk:
Para demonstrar a sua utilidade para a pesquisa empírica e
pesquisa teórica, uma afirmação paradigmática como esta deve cumprir quatro
critérios: Primeiro, seus pressupostos devem destacar as conexões conceituais
inexploradas entre as hipóteses liberais previamente não relacionadas. Em
segundo lugar, deve definir claramente seus próprios limites conceituais
conforme a teoria social fundamental, neste caso, distinguir claramente as
hipóteses liberais de hipóteses ideológicas ou históricas. Em terceiro lugar,
deve revelar as anomalias e fraquezas metodológicas nas teorias anteriores,
criando novas presunções sobre as teorias e métodos adequados que estruturam
uma pesquisa empírica. Em quarto lugar, deve definir como a teoria em questão
pode ser combinada de forma direta e não aleatoriamente com outras teorias para
formar explicações coerentes. (MORACVISK, 1997, p. 533)
Liberalismo
como uma teoria geral
Uma vantagem da teoria
liberalista é que conecta uma ampla gama de hipóteses distintas e independentes
relativas a áreas previamente inexplicáveis pelas teorias existentes. Assim,
a teoria liberal desafia a suposição convencional de que o realismo é a mais
abrangente e parcimonioso das principais teorias de RI. Suas três variantes –
ideacional, comercial e liberalismo republicano – são mais fortes quando
analisadas em conjunto.
A Teoria liberal também
ilumina pelo menos três grandes fenômenos os quais o Realismo e o
Institucionalismo oferecem poucas explicações. Primeiro, a teoria liberal
fornece uma explicação teórica plausível para a variação no conteúdo
substantivo da política externa. Nem o Realismo nem Institucionalismo explicam
as mudanças dos objetivos e propósitos sobre as quais os Estados conflitam ou
cooperam.
Em segundo lugar, a
teoria liberal oferece uma explicação plausível para a mudança histórica no
sistema internacional. O caráter estático de ambas as teorias realista e
institucionalista, e a sua falta de uma explicação para a mudança de longo
prazo da política internacional é uma fraqueza reconhecida. A Teoria liberal,
pelo contrário, forja uma ligação causal direta entre as mudanças econômicas,
políticas e sociais e o comportamento do Estado na política mundial.
Em terceiro lugar, a
teoria liberal oferece uma explicação plausível para a distinção da moderna
política internacional. Entre as democracias industriais avançadas, uma forma
estável de política interestatal surgiu, baseada em expectativas confiáveis
de mudança pacífica, no regimento interno do Direito, em instituições
internacionais estáveis, e interação social intensa – a chamada
interdependência complexa.
Os
limites comerciais do liberalismo: porque o regime funcionalista não é liberal
Outra vantagem da
reformulação das teorias é esclarecer a divergência fundamental entre as
teorias de preferências Estado-cêntricas e as teorias modernas centradas nos
regimes internacionais. O liberalismo permite que as preferências do governo
variem, explica a política como uma função do contexto social e se concentra em
como o conflito doméstico, não a anarquia internacional, impõe resultados
sub-ótimos.
Isto não quer dizer, no
entanto, que a teoria liberal seja inútil na análise dos regimes
internacionais. Pelo contrário, contribui para uma tal análise, em pelo menos
duas formas distintas. Primeiro a teoria liberal explica quando e por que a
configuração das preferências do Estado é provável que surja. A configuração de
preferências nos permite prever características detalhadas dos regimes internacionais.
Além disso, a teoria
liberal aprofunda a explicação institucionalista da estabilidade do regime. A
teoria liberal sugere uma hipótese alternativa: ou seja, que os regimes
internacionais são estáveis quando os indivíduos e os grupos sociais se ajustam
de modo a fazer uma inversão da política interna.
Implicações
metodológicas da teoria liberal: o perigo da omissão
Uma terceira vantagem
potencial de reformular uma teoria cientifica social é aumentar sua saliência,
enfatizando estudos empíricos para a consideração das hipóteses. Poucos estudos
confrontam as hipóteses do realismo e institucionalismo (ou construtivismo),
omitindo variáveis que poderiam ter grande significância para as teorias. (não
entendi direito, mas o autor da um exemplo). O exemplo é sobre a critica
realista de Joseph Grieco sobre os ganhos relativos de barreiras não
tarifarias, quando o autor diz que problemas de segurança e não medo de
trapaças futuras é o motivo da não cooperação. Moravcsik diz que se Grieco
reconhecesse algumas premissas da teoria liberal, não estaria omitindo a
resposta da sua critica. Ao invés de focar apenas nas questões estruturais e o
papel do Estado (premissas realistas), Grieco deveria reconhecer o papel das
instituições, ideias e conflitos domésticos, todas premissas liberais
ignoradas. Segundo Moravcsik, na questão dos ganhos relativos, as pressões
domesticas dos Estados influenciam diretamente as decisões estatais, mas que
são omitidas pelas criticas realistas.
O segundo exemplo é
sobre os esforços de concretização do construtivismo como teoria de RI. Assim
como o realismo, o construtivismo procura se esquivar de confrontos com a
teoria liberal, omitindo suas principais premissas. O autor diz que a falta de
embate entre os princípios construtivistas contra os liberais inflam o suporte
à consolidação do construtivismo. Moravcsik diz que para teorizar rigorosamente
sobre a construção social sistêmica, antes ela deve requerer a teoria liberal.
Segundo ele, antes da ideia construtivista de construção social sistêmica
através das ideias, devemos primeiro observar as convergências e divergências
entre as ideias das instituições internas, premissa essa de cunho liberal.
Assim, a analise coloca dois desafios ao construtivismo. A primeira sugere que
as variáveis liberais são mais fundamentais que as construtivistas, por que
elas definem as condições onde altas taxas de comunicação e transação altera o
comportamento do Estado. A segunda sugere que os fatores liberais domésticos
são melhores para a explicação da paz e transições do que as construtivistas.
Diz que a política mundial seria melhor entendida diante de um debate empírico
entre construtivistas e liberais.
Os exemplos mostram que
é essencial tratar o liberalismo como uma constante base teórica contra as
hipóteses realista e construtivista. A falha em analisar as preferências
estatais confundiram os realistas em diferentes analises: deterrence,
influencia hegemônica, formação de alianças, negociações internacionais,
cooperação monetária internacional, cooperação multilateral, sanções econômicas
e integração europeia. Em alguns casos, como o realista Walt e o construtivista
Wendt, já reconhecem alguns princípios liberais, como as “intenções” serem
inseridas no realismo e o reconhecimento das interações estatais e não somente
sociais dentro do construtivismo.
Liberalismo
e síntese da teoria: a prioridade das preferências
Autor diz que alguns
aspectos das teorias liberais, realista e institucionalista são compartilhados,
e que as vezes ele não são elementos substitutivos, mas complementares, o que
ele chama de síntese multicausal. Outra importante vantagem do retesamento da
teoria é oferecer um modelo multicausal das teorias de RI mais claras do que as
existentes atualmente. Muitos teóricos fazem este exercício colocando o
realismo primeiro, e depois introduzindo as outras teorias. Moravcsik diz que
esta convenção metodológica omite outras variáveis quando privilegia o realismo,
o que torna um processo incoerente. Com isso, ele afirma que há algumas
variáveis liberais que explicam certos casos em que as outras teorias não
conseguem explicar, como a variação nas preferências e escolhas.
De forma que para o
autor, o realismo e institucionalismo são limitados em explicar o ótimo de
Pareto, e que o liberalismo não é apenas consistente, mas empiricamente
significante. Enquanto o realismo e institucionalismo explicam parcialmente, o
liberalismo consegue preencher algumas lacunas essenciais que essas outras
teorias na conseguem. A explicação das políticas domestica, o liberalismo é a
melhor teoria para explicar as preferências internas.
O comportamento estatal
deve ser analisado como um processo de dois estágios constrangido pela escolha
social. Primeiro os Estados definem preferências (melhor explicado pelos
liberais), e em seguida debatem, barganham e brigam por acordos (bem explicado
pelas outras teorias, assim como pelo liberalismo). No geral, ele diz que em
explicações multicausais, há uma primazia pela teoria liberal.
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Principais
pressupostos do Intergovernamentalismo Liberal
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Relação
com o debate sobre Integração Regional
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Formação
de preferências nacionais
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A formação da preferencia nacional
ocorre primeiramente no âmbito doméstico e, posteriormente, o Estado barganha
com outros Estados, para conseguir seu objetivo. As diferenças entre os
Estados, no entanto, são relativizadas através da barganha, uma vez que esta
consiste no mínimo denominador comum entre os Estados. Ou seja, os Estados
definem suas preferências e depois barganham entre si.
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Comportamento
Racional do Estado
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Para essa teoria, o Estado é visto
como ao mesmo tempo racional e egoísta e por isso, busca a maximização dos
ganhos, de forma que a relação custo-benefício dos processos de integração
compensa a participação dos Estados nos processos de integração através da
formação de preferências.
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Estado
como ator central
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Consiste na visão do Estado como
principal ator no sistema internacional, uma visão Estado-cêntricas.
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MORAVCSIK, Andrew. Taking
Preferences Seriously: A Liberal Theory of International Politics. International Organization 51, 4,
Autumn 1997, pp. 513–553. Disponível em: <http://www.princeton.edu/~amoravcs/library/preferences.pdf>.
Acessado em 10 de setembro de 2013.
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