terça-feira, 11 de junho de 2013

UMA ANÁLISE NEORREALISTA DA INTEGRAÇÃO REGIONAL

Andrew Hurrell, autor empenhado em explicar as teorias de compreensão da integração regional, divide-as a partir de três níveis de análise, quais sejam: as Teorias Sistêmicas; o Regionalismo e Interdependência; e as Teorias de Nível Interno. O autor por sua vez acopla a teoria neorrealista, objetivo de estudo nesse momento, no primeiro nível de análise, nível das Teorias Sistêmicas. O motivo pelo qual Hurrell enquadra tal teoria ao primeiro nível de análise é porque, de acordo com o autor, tais teorias baseiam-se em na análise dos fatores exógenos para compreender a integração regional. Desta forma, esta teoria analisa o fenômeno do regionalismo levando em conta as estruturas políticas e econômicas amplas, além do impacto destas sobre cada região.
A teoria neorrealista considera o sistema internacional enquanto anárquico, de maneira que os interesses nacionais dos Estados-membros exercem papel de destaque, pois é através destes interesses que as alianças regionais são criadas. Desta forma, através das pressões externas, como a competitividade do cenário internacional ou alguma ameaça no sentido político, podem favorecer a formação de alianças, porém estas são pragmáticas, ou seja, só existem enquanto garantia dos interesses dos Estados.
A hegemonia também tem papel importante nesta teoria, de acordo com Hurrell, impactando a integração regional de três formas. A primeira delas assume os agrupamentos regionais podem se formar como reação à existência de um poder hegemônico real ou potencial, ou seja, como forma de garantir a balança de poder. A segunda forma adverte que os Estados mais fracos buscam se aliar com os mais fortes regionalmente, prática chamada de “bandwagon”. É nesse sentido que muitos Estados entram em blocos regionais para obter benefícios econômicos com as potências regionais. E a última forma é que os Estados hegemônicos buscam construir instituições regionais para legitimar e dar credibilidade ao seu exercício de poder hegemônico, ou seja, muitas instituições regionais, que fazem parte da integração regional, são criadas neste sentido.
Nesse sentido, para os Realistas, a hegemonia é um fator de grande relevância, uma vez que proporciona a integração regional de distintas maneiras. O regionalismo, para os neorrealistas, representa uma resposta à potência hegemônica na busca pela balança de poder, de forma a tentar constranger o exercício de poder. É nesse sentido que a integração regional para os neorrealistas representa uma possibilidade dos Estados mais fracos se acomodarem e barganharem perante os Estados mais fortes. Para as potências hegemônicas, por sua vez, o regionalismo representa a oportunidade de institucionalizar e manter sua preponderância no sistema internacional.

Principais pressupostos da teoria Realista para a Integração Regional
1 – Sistema internacional anárquico;
2 - Estados como principais atores;
3 – Busca pela hegemonia;
4 – Balança de poder;
5 – Cenário potencialmente conflituoso.

Uma vez estabelecido os principais pressupostos da Teoria Realista, fica mais didático entender a integração regional a partir desta. Para os Realistas, o regionalismo é visto como um processo de formação de alianças favorecidas pelas pressões externas de modo a promover a maximização de poder. As pressões externas, entendidas aqui como as ameaças ao pode econômico e político, favorecem as pressões pelo poder e a competição entre os Estados.
A busca pela hegemonia favorece a integração regional segundo os realistas uma vez que os agrupamentos regionais se formam em resposta à existência de um poder hegemônico real ou potencial. Também, os Estados mais fracos tendem a buscar a acomodação regional com o poder hegemônico local na esperança de receber recompensas. O próprio poder hegemônico pode procurar se envolver na construção de instituições regionais.
Embora a integração regional aparente certa fragilidade, podendo ser desfeita a qualquer momento uma vez que os interesses dos Estados são comumente distintos, para os neorrealistas, a integração tende a ser mais eficaz através da cooperação internacional. Isso acontece porque segundo a teoria realista, o comportamento do Estado tende a ser racional. Essa máxima implica na aceitação da ideia de que os custos e benefícios determinam a preferencia estatal. Ou seja, muitas vezes, os custos de saída e de agir unilateralmente são maiores do que os custos da cooperação.  De forma que a integração ocorre quando o custo da ação unilateral é maior do que através da integração, favorecendo-a.
É nesse sentido que Walter Mattli, assim como Hurrell, critica a perspectiva realista de integração regional. Para Hurrell, os neorrealistas consideram os interesses particulares dos autores, mas não explicam a natureza desses interesses. Também, dizem pouco sobre as características da cooperação depois da integração estabelecida e dos impactos dos fatores internos da cooperação. Os neorrealistas também não explicam o impacto dos processos de integração regional. Além disso, essa corrente negligencia o papel dos atores internos no processo de tomada de decisão, tomando sempre os interesses dos Estados como dados.
Já para Walter Mattli, a Integração Regional é um produto de diversas e variadas forças, sendo uma ligação econômica e politica voluntária entre os Estados. Mattli explica que tem sido comumente utilizado três bases, não cientificas, para a explicação da integração regional. A primeira reside no fato de, procurando evitar os horrores de outra possível guerra interna europeia, os políticos do continente criaram instituições regionais que pudessem servir deste propósito, estabelecendo aparatos supranacionais para tal objetivo. A segunda consiste na noção de liderança, que líderes carismáticos planejaram transcender às pressões domésticas e grupos hostis a integração europeia. E, por fim, o terceiro se resume em mudanças de preferências, cujas populações de alguns países agonizavam por um desejo da construção de uma cultura europeia.
Segundo Walter Mattli, há uma lógica no processo de integração regional que implica em regularidades e mudanças de preferências entre os atores. A proposta de Mattli é explicar o fenômeno da integração na Europa enquanto autossustentável. O autor então percebe a necessidade de se aprofundar em instituições internacionais para avançar na integração regional. A maior corrente que analisa a integração regional segundo Mattli é a teoria funcionalista, ou neofuncionalista, que acredita que a supranacionalidade é o único método que as nações têm de assegurar o bem-estar.
Essa corrente utiliza-se de conceitos como o “spillover” funcional; interesses comuns; grupos de interesse subnacionais e supranacionais. Contudo, falha em sua explicação de seu link entre maximização do bem-estar e integração regional; além de explica os fatores econômicos transacionais; e não explicar completamente quando as demandas subnacionais de integração são aceitas em nível nacional.


 Referencial bibliográfico:

HURRELL, Andrew. O ressurgimento do Regionalismo na Política Mundial. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, vol.17,n.1, jan/jun 95,p.23-59

MATTLI, Walter. The logic of regional integration: Europe and beyond. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.

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