A seguir serão apresentadas as principais considerações a respeito de
três teorias de integração regional: funcionalismo, neofuncionalismo e
construtivismo, assim como as relações entre cada teoria e os processos de
Integração Regional.
Funcionalismo e neofuncionalismo
Dentro do escopo das teorias sobre os processos de integração
regional, o Funcionalismo figura como uma das teorias clássicas, definidas
cronologicamente por Milnek e Mansfield como a primeira geração de discussão
conceitual sobre o tema, juntamente com o Intergoverntamentalismo (ou liberal
institucionalismo), entre as décadas de 1950 e 1980.
O principal autor da teoria funcionalista é David Mitrany, que elabora
a Teoria da Ramificação em 1943. Esta, por sua vez, serve de base para um dos
principais conceitos do neofuncionalismo, o spill-over de Haas (1970).
A teoria de Mitrany (1990) traz a ideia de que o processo de integração
é iniciada por problemas técnicos
compartilhados entre os Estados da região, o que leva a uma aproximação
liderada por elites técnicas, de forma a buscar uma integração por meio das
instituições. Desta forma, quando a cooperação com objetivo de solucionar
problemas técnicos tem resultados funcionais, ou positivos, a ideia da
cooperação se prolifera para outros setores, gerando necessidade de colaboração
funcional em diferentes áreas.
Além disso, a teoria funcionalista traz a ideia de que a integração faz
com que os Estados compartilhem sua soberania em assuntos específicos dos
Estados em busca de resultados positivos, supondo que a integração regional
traz bons resultados (é necessário levar em conta que a teoria foi desenvolvida
a respeito da integração da Comunidade Europeia e pode não ser aplicável a
outras situações).
Outros pontos importantes sobre
a contribuição do funcionalismo são que, primeiramente, é a primeira teoria
não-marxista do século XXI que propõe uma análise dos Estados para além do nível
nacional, ou seja, levando em conta outros autores. Além disso, a teoria
contribuiu para os estudos contemporâneos para o transgovernamentalismo e,
finalmente, apresenta a possibilidade de separação entre poder político e
outros temas de low policy (como meio
ambiente, desemprego e welfare).
Algumas décadas após o surgimento da teoria funcionalista, nos anos
1950, surge a teoria neofuncionalista, cujo principal autor é Haas. Ele traz o
conceito de spillover, que pode ser considerado um desenvolvimento da teoria da
ramificação de Mitrany.
A teoria neofuncionalista é definida por Hurrell (1995) como sendo de
segundo nível, que abarca as teorias que enfatizam uma estreita ligação entre
regionalismo e interdependência. No caso da teoria aqui comentada, existe um
papel muito relevante das instituições no processo de integração,
principalmente as do tipo supranacional, que podem atingir um papel até mesmo
mais importante que as instituições nacionais dos membros.
Já Mattli (1999) destaca que esta supranacionalidade é o único método
possível para os Estados garantirem a máxima segurança em um processo de
cooperação regional, porém a teoria peca em não especificar em que condições as
demandas supranacionais são aceitas no nível nacional.
O autor Haas traz ainda outras contribuições, definindo a integração
como um processo liderado por atores políticos e outros atores domésticos
nacionais tomam uma iniciativa de
transferir suas lealdades, expectativas e atividades políticas para um novo e
maior centro. Este centro possui instituições que possuem ou demandam
jurisdição sobre os Estados membros, realizando uma transferência gradual de
lealdade que faz com que se crie uma nova identidade, a regional.
Algumas motivações apresentadas pelo autor a respeito da integração são,
primeiramente, fatores externos, como as ameaças externas, que criam a vontade
de criar políticas de segurança comum. Além disso, existe a promoção da
cooperação para obter desenvolvimento econômico e aumento do bem-estar social
dos membros. Outro fator externo é minimizar a influência do hegemon na região,
além da vontade de estabelecer um cenário pacífico e equilibrado, entre os
Estados.
O processo de integração é explicado por Haas com o spillover, que se
inicia com a formação de um núcleo funcional, formado por governos, elites,
partidos políticos, técnicos e burocracias especializadas, com capacidade
autônoma para provocar outros estímulos à integração com a adesão de novos
atores e setores.
Estes líderes estabelecem as novas demandas, que, ao contrário do que
afirma Mitrany, podem ser iniciadas com setores não somente técnicos e
econômicos, que levam a uma necessidade de se criar instituições
supranacionais, levando ao compartilhamento de expectativas e lealdades entre
os Estados-membros.
É interessante ressaltar que este processo tem três diferentes fases.
Primeiramente existe a chamada acomodação por meio do mínimo denominador comum,
quando existe ainda muita barganha e competição entre os Estados, que agem
ainda de forma egoísta e sem levar muito em conta as demandas da sociedade.
Posteriormente temos a acomodação pela divisão das diferenças, sendo que as
barganhas são reduzidas e utilizam grupos ad hoc e organizações econômicas
internacionais para serem mediadores nas negociações. Finalmente temos a etapa
do spillover em si, com o aprofundamento dos interesses comuns das partes,
formando uma comunidade política com jurisdição legislativa e judicial
completa.
Em adição, McGowan é um autor contemporâneo que revisita a teoria
neofuncionalista de Haas e, em seu texto publicado em 2007, afirma que a teoria
ainda é válida para analisar a integração europeia, mesmo que não consiga
explicar todo o processo integralmente. Ele destaca que a teoria trouxe noções
do pluralismo social e do spillover como determinante da dinâmica do processo
de integração, além de ter se focado em grupos da sociedade ao invés de
considerar apenas as decisões de executivos ou dos Estados, como outras
teorias.
Além disso, destaca que a teoria neofuncionalista surgiu como uma
tentativa de explicar o quê e por quê o processo de integração europeia estava
acontecendo, ao invés de apresentar considerações descritivas sobre os fatos.
Além disso, destaca que nenhuma outra teoria da integração foi tão criticada e
atacada, de forma que ela pôde refinar sua ideia de spill-over de forma que
este processo tornou-se capaz de explicar como os atores internacionais
desenvolvem interdependências tão latentes. Desta forma, McGowan defende com
sucesso a ideia de que o Neofuncionalismo continua relevante para explicar o
processo de integração europeu.
Teoria
Construtivista
De acordo com o próprio nome da teoria, o Construtivismo tem como
premissa principal a ideia de que a política internacional é socialmente
construída. Nela os atores influenciam a construção da estrutura social e ao
mesmo tempo são influenciados por essa mesma estrutura no processo de
interação. Desta forma, as ideias e normas são importantes na constituição da
realidade e dos interesses dos atores. Para o Construtivismo os fatores
materiais não são descartados; sua relevância é admitida como fundamental,
porém entende-se que estes sejam frutos das ideias. Assim, as ideias seriam a
base material do sistema (WENDT, 1999).
A teoria Construtivista faz parte do chamado terceiro debate das
Relações Internacionais, que envolve a discussão entre Construtivismo e
Racionalismo. Para o Racionalismo, os atores do sistema internacional agem
racionalmente, de acordo com uma análise hierárquica da escolha de seus
objetivos, considerando um cálculo de custo-benefício em busca da maximização
de seus lucros e da minimização de seus custos. Já o Construtivismo acredita
que as preferências dos atores sejam formadas durante o processo de interação
destes com o sistema internacional, podendo sofrer transformações (e
transformando o sistema) à medida que entram contato com a estrutura em que
estão inseridas.
Wendt (1999) analisa o sistema internacional a partir da divisão entre
micro e macro estruturas, sendo as microestruturas as partes que interagem
entre si e a macroestrutura o sistema como um todo. As estruturas são
consideradas sociais pois, ao agirem, os atores levam em conta uns aos outros,
moldando suas ações de acordo com a expectativa da atitude do outro, sendo esta
baseada na identidade de cada um. Os interesses de cada agente são definidos
por suas identidades e estas identidades nacionais são influenciadas pela
própria interação entre os agentes.
Para o Construtivismo as identidades nacionais são inerentes aos
Estados e estas definirão suas práticas e seus interesses, considerando, no
entanto, que estes sofram transformações. A integração regional é entendida
como uma formação de identidade coletiva, sem que deixe de existir a identidade
nacional. Este processo de daria pela união de agentes não só com interesses
comuns, mas também unidos por laços históricos e culturais iguais (ADLER, 1997).
Assim, o Construtivismo aborda as Relações Internacionais de uma
perspectiva social, atribuindo uma flexibilidade à estrutura internacional e às
identidades coletivas, sendo estes mutuamente influenciados durante o processo
de interação. Alguns estudiosos consideram que o Construtivismo não deva ser
considerado uma teoria mas sim um diferente enfoque de análise das RI pois não
seria um conceito homogêneo, sendo ele próprio constituído por uma variedade de
perspectivas.
Tabela de Teorias
Levando em conta as teorias aqui apresentadas e as anteriormente
apresentadas, foi possível confeccionar uma tabela que resume as premissas e a
relação de cada teoria com os processos de integração regional:
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Premissas
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Relação
entre a teoria e os processos de Integração Regional
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Teoria Realista
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Sistema
internacional anárquico; Estados como principais atores; Busca pela hegemonia;
Balança de poder; Cenário potencialmente conflituoso
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A integração regional seria uma forma dos
países garantirem sua segurança no sistema. Além disso, o Realismo aponta que
estes processos sempre são conduzidos por uma hegemonia regional.
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Teoria Liberal (Liberal
Intergovernamentalismo)
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Comportamento
racional do Estado; Negociação interestatal; Formação das preferências;
Estado como ator central
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Governos
analisam suas escolhas e preferências de forma pragmática e racional. A
formação da preferência nacional ocorre primeiramente no âmbito doméstico e,
posteriormente, o Estado barganha com outros Estados, para conseguir seu
objetivo
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Funcionalismo
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Compartilhamento
de soberania, discussão no nível técnico (cooperação funcional) e
transferência de lealdades
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Integração
faz com que os Estados compartilhem sua soberania em assuntos específicos dos
Estados em busca de resultados positivos
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Neofuncionalismo
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Transferência/Compartilhamento
de expectativas e lealdades; Spill-over; Papel dos políticos, grupos de
interesse e elites domésticas em destaque; Integração não se dá de forma
automática
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A
sociedade civil e as agências supranacionais desempenham papel decisivo na
integração e no consequente compartilhamento da soberania entre os
Estados-membros. A iniciativa destes grupos internos gera spill-overs
econômicos e políticos que trazem continuidade ao processo de integração
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Construtivismo
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Realidade
socialmente construída; As estruturas, as identidades e os interesses dos
atores são construídos por ideias compartilhadas e mutuamente influenciados.
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A
integração regional é entendida como uma formação de identidade coletiva, sem
que deixe de existir a identidade nacional. Este processo de daria pela união
de agentes não só com interesses comuns, mas também unidos por laços
históricos e culturais iguais.
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Fonte:
Elaboração própria.
ADLER, Emanuel. O Construtivismo no Estudo das Relações
Internacionais. Traduzido do original “Seizing the
Middle Ground: Constructivism in World Politics”, in European Journal of
International Relations, 1997.
HAAS, Ernst.
The Study of regional integration: reflections on the Joy and Anguish of
pretherorizing. International
Organization, vol. 24, Issue 04, September 1970, p. 606-646.
MARIANO, Karina Pasquariello. Nova visão das teorias de integração
regional: um modelo para a América Latina. Unesp, 2004 (Relatório Fapesp).
Capítulos 1 e 2.
MITRANY, David. A paz por meio da
cooperação e da integração. In: BRAILLARD, Philippe. Teoria das Relações Internacionais. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 1990.
ora como acha que o institucionalismo e o neofuncionalismo explica a integracao?
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