segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Série de postagens

Realista – O que queremos ser da China?

A reportagem de Keila Candido da Isto É, “O que queremos ser da China?”, demonstra um olhar estratégico do ex-embaixador brasileiro em Pequim, Clodoaldo Hugueney, em que ele propõe que o Brasil deva aproveitar melhor as relações comerciais com o gigante asiático neste momento de novos acordos entre Estados Unidos e União Europeia. Abaixo serão demonstrados alguns trechos que demonstram um olhar mais pragmático e realista do embaixador sobre a postura do Brasil frente a estes acordos e ao bloco do Mercosul:
Segundo o embaixador, a recuperação chinesa é um “bom sinal para o mundo e também para o Brasil, que tem o gigante asiático como o principal parceiro comercial.” Para ele, “o Brasil tem de desenvolver uma estratégia de negócio séria em relação à China e melhorar o comércio com aquele país principalmente em áreas como celulose, milho e carne. Para Hugueney, o Brasil deve desenvolver uma visão estratégica de médio longo prazo, mas antes disso, devemos fazer a pergunta que dá titulo à reportagem: “E nós? O que queremos ser da China? Queremos ser apenas fornecedores de minério de ferro e soja, ou queremos desenvolver um outro tipo de relação com os chineses?”
Em seguida, a jornalista pergunta ao embaixador o que ele “pensa sobre acordos comerciais que estão acontecendo como a Parceria Transpacífico, que será a integração econômica na região Ásia-Pacífico. Hugueney afirma que esse mega acordo está em processo inicial de negociação, mas se isso for levado adiante, vai mudar a configuração do comércio mundial. E o Brasil está onde? Está aqui com o Mercosul, sem saber se leva adiante uma negociação com a União Europeia.
 Hugueney acha que é preciso ao Brasil agilizar as negociações com a União Europeia, pois esta corre o risco de fechar um acordo com o EUA. Segundo ele “os EUA são os maiores produtores de soja do mundo e enorme produtor de carne do mundo, os maiores produtores de suco de laranja, milho, etanol. O Brasil está atrasado para entrar nessa jogada. Esse acordo pode fracassar, mas não dá pra olhar como se ele não existisse. A China vai acabar se integrando nesses esquemas, ela não vai ficar de fora porque é altamente competitiva e depende de comercio mundial”.
 Hugueney diz que o Brasil não deva fechar as portas para a região, “porque todo mundo está trabalhando em esquema de integração regional, ou mais formais ou menos formais. As cadeias produtivas no leste da Ásia estão todas integradas. Mesmo com toda disputa política entre a China e o Japão, eles já realizaram reuniões de negociação comercial. Apesar de ter disputas, eles sabem que a realidade econômica é urgente. A China está agora olhando para parceria transpacífica. Ela não é membro, mas está interessada nisso porque viu que os EUA começaram uma negociação com a Europa, que é algo extremamente difícil de fazer. Temos acompanhar mais isso e participar.”
Por último, a pergunta da jornalista sobre o que o embaixador achava desta sua visão sobre o acordo dos países do Mercosul. Hugueney pensa que o “Brasil tem de seguir com a negociação, mesmo sem os parceiros do Mercosul. Não é mais momento para faz de conta. Nenhum país está mais em momento de faz de conta. Ou vale ou não vale. O Mercosul tem condições de negociar ou não tem? O Brasil não pode deixar esse momento de negociações passar. Em um universo de cinco a dez anos esse panorama pode mudar radicalmente.”
Para os teóricos do neorrealismo, o que importa para os Estados são os elementos estruturais, tais como o sistema anárquico, a balança de poder e o Estado como o ator principal nas relações internacionais. A integração regional é vista como um meio de obter mais poder através do jogo de alianças. As integrações são formadas a partir de ameaças externas seja do ponto de vista político ou econômico. De acordo com a visão do embaixador, as estruturas de integração regional são importantes meios de alianças para superar dificuldades econômicas e diante de ameaças externas de outras integrações regionais, o que pode ser visto no exemplo da ligação da China e do Japão em contraposição à possível ameaça da integração entre EUA e União Europeia. No caso do Brasil, o embaixador diz que o país deve pensar em termos estratégicos, e que as relações brasileiras com o Mercosul devem ser deixadas em segundo plano neste momento, quando mudanças estratégicas globais que podem alterar balanças de poder político e econômico estão em jogo.  Esta visão do embaixador é bastante pragmática e realista, pois pensa em melhores estratégias para equilibrar balanças de poder econômico. Assim, a integração regional para ele somente é viável quando trás ganhos importantes para o país. O caso do Mercosul, que se encontra em difícil fase de evolução das negociações com a União Europeia, o embaixador acha mais viável colocar os acordos regionais em risco e continuar negociando já que o país pode conseguir melhores ganhos fora do Mercosul.

CÂNDIDO, Keila. O que queremos ser da China? Disponível em: <http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/127938_O+QUE+QUEREMOS+SER+DA+CHINA>. Acessado em 10 de setembro de 2013.

Intergovernamentalista – Mercosul – maiores turbulências pela frente?

Na reportagem do Estadão de Roberto Teixeira da Costa: “Mercosul – maiores turbulências pela frente?”, é explicado através do ponto de vista dos empresários brasileiros a crise que a integração sul-americana vem enfrentando nos últimos anos, quando a maioria dos atores econômicos destes países enxergam uma inércia na evolução do bloco. Apesar de uma maior aproximação e diminuição de rivalidade entre Brasil e Argentina desde a criação do Mercosul, as crises econômicas da década de 1990 ainda afetam as relações comerciais destes países.
O problema reside no fato que “Em períodos mais recentes a economia brasileira, bem mais dinâmica que a de nossos vizinhos e com uma classe empresarial bem mais ativa, passou a acumular expressivos saldos na balança comercial”, o que motivou os “nossos vizinhos a passar a adotar medidas protecionistas, cada vez mais severas, para preservar suas reservas cambiais, com forte impacto nas exportações brasileiras.” Com isso, “não existe o mesmo entusiasmo pelo Mercosul, sendo crescente o número de empresários, economistas e outros formadores de opinião que defendem o abandono do bloco como união aduaneira e sua transformação numa zona de livre-comércio. Entre outras razões, pelo fato de não podermos buscar outros acordos comerciais sem que nossos parceiros concordem.”
Há previsões que a Argentina possa entrar em uma nova crise, quando há falta de confiança no país, baixo crescimento e altas taxas de inflação. Isso pode “ampliar as barreiras comerciais, aumentando as dificuldades de exportação” do Brasil. Essa instabilidade econômica dos argentinos cria disputas políticas com o Brasil, o que pode tornar o bloco cada vez mais instável. Há varias correntes a favor de mudanças no Mercosul, como o fim da união aduaneira e a instauração do livre-comércio. 
De acordo com a perspectiva do intergovernamentalismo, podemos ver nesta reportagem alguns aspectos da teoria de Andrew Moravcsik. Segundo o autor, a integração regional pode ser explicada através de três elementos principais: o comportamento racional dos Estados; as preferências dos agentes internos dos Estados; e o processo de barganha inter-estatal. Na reportagem percebemos que as ações estatais são formadas a partir de preferências dos agentes, como os empresários, economistas e formadores de opinião. Estas preferências partem do ponto de vista racional de ganhos destes agentes, e que consequentemente são transmitidas nas ações estatais, que através de barganhas entre Brasil e Argentina procuram estabelecer acordos que os beneficiem mutuamente. A disputa endógena entre os empresários formará a ação externa dos Estados, que no caso do Brasil é procurar diminuir as barreiras comerciais argentinas, ao mesmo tempo em que deve-se partir do ponto de vista racional, quando há indícios de uma crise econômica que poderia acarretar maiores riscos para as relações bilaterais e do Mercosul.

COSTA, Roberto Teixeira da. Mercosul - maiores turbulências pela frente? Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,mercosul--maiores--turbulencias-pela-frente-,1071053,0.htm>. Acessado em 10 de setembro de 2013.

As teorias Funcionalista e neofuncionalista na União Europeia

Duas reportagens do site Jornal de Negócios de Portugal, Inês Balbeira entrevista Antonio Vitorino (António Vitorino: “A integração europeia foi uma apólice de seguros para Portugal”), ex-Comissário Europeu e Maria Joao Rodrigues (Maria João Rodrigues: “Atravessamos uma crise de integração europeia”), Ex-Ministra do Emprego, evidenciando opiniões sobre o papel de Portugal e dos principais Estados do bloco para solucionar a crise que a União Europeia (UE) ainda não conseguiu superar.
Segundo Vitorino, além da crise econômica, a UE vem sofrendo de uma crise de identidade, quando pode haver uma ““mutação constitucional”, onde o espaço muda mas as “regras de jogo” ficam inalteradas” no bloco. Segundo ele, os fundos comunitários para ajudar na crise foram benéficos, mas hoje cessaram e isso se torna um problema para o país sair da crise. Ao contrário do período que Portugal aderiu ao bloco, hoje ele é mais integrado e com número muito maior de países. Assim, diante deste novo cenário, “é essencial para o país continuar nos núcleos de aprofundamento, nomeadamente a moeda única. “É dentro do euro que temos de vencer e é necessário permanecer na moeda única para que Portugal recupere”, disse António Vitorino”. Em sua opinião, é importante que Portugal dê mais atenção às relações franco-alemãs, pois elas são essenciais para o país sair da crise.
Segundo Maria Rodrigues, há uma “divisão profunda” na “crise da Zona Euro”, quando os “Estados-membros devem questionar o papel da Europa enquanto comunidade política, nomeadamente a possibilidade e a vontade de a Europa ser uma comunidade política.” Para ela, “a União Europeia é um projeto inacabado e a atual crise que o bloco europeu atravessa pode ser a oportunidade para acabar este projeto e apaziguar as divisões que se fazem sentir. Uma crise pode ser uma oportunidade, mas pode ser uma oportunidade perdida. E esta crise pode ser a oportunidade para concluir o projeto europeu.”
Assim, podemos elencar alguns pontos nas entrevistas que coincidem com as contribuições da teoria neofuncionalista para Ernest Haas. Segundo o neofuncionalismo, as integrações regionais ocorrem a parir de interesses comuns de agentes domésticos dos Estados em relação aos agentes externos. Partidos políticos, elites econômicas, grupos técnicos e burocracias especializadas podem promover a formação de núcleos funcionais entre os Estados que no futuro pode levar a uma convergência e diversas áreas, o que ele chama da spillover. Segundo ele, é este processo que ocorreu na União Europeia (UE), quando núcleos funcionais geraram interesses na sociedade e que levaram à criação de instâncias supranacionais de integração entre os Estados com o objetivo de aumentar os fluxos econômicos e bem estar das populações.
De acordo com Vitorino, apesar de viver uma fase diferente, neste momento de crise a UE deve continuar investindo nos núcleos de aprofundamento, que são os grupos funcionais de Haas. Os fundos europeus de auxílio e a continuidade da moeda única são elementos que Vitorino compreende serem indispensáveis para o não retrocesso da integração europeia. Além disso, a criação de expectativas no sucesso das relações de França e Alemanha para o futuro da integração é outro elemento da teoria de Haas, quando a integração passa a criar lealdade e expectativas entre os membros.  Para Maria Rodrigues, a UE passa por uma crise que gera oportunidade de terminar projeto de integração e que somente através do aprofundamento de novos instrumentos, de novos núcleos funcionais, a integração europeia poderá seguir seu curso de conclusão. Este é outro elemento que condiz com a teoria de Haas.
O que podemos perceber é que as ideias da teoria neofuncionais estão presentes pelo menos no cenário político português, e que estes núcleos funcionais realmente são elementos que podem gerar convergências e novas expectativas entre agentes de diferentes Estados.

BALREIRA, Inês. Maria João Rodrigues: “Atravessamos uma crise de integração europeia”. Disponível em:  <http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/maria_joao_rodrigues_atravessamos_uma_crise_de_integracao_europeia.html>. Acessado em 09 de setembro de 2013.

______. António Vitorino: “A integração europeia foi uma apólice de seguros para Portugal”. Disponível em: <http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/antonio_vitorino_a_integracao_europeia_foi_uma_apolice_de_seguros_para_portugal.html>. Acessado em 09 de setembro de 2013.

Construtivismo na União Europeia

Na reportagem do site Expresso XL de Portugal, Henrique Monteiro questiona o apoio de grande parte da população portuguesa à independência da região Catalunha. Segundo o autor, o centralismo de Madrid e o fato de boa parte das riquezas da Catalunha serem empregadas para o sustento de outras regiões mais pobres da Espanha (além de rivalidades históricas) são os grandes motivos do movimento separatista que visa tornar a Catalunha um Estado-nação. Por estar mais próxima do centro da Europa, a região catalã conseguiu se beneficiar melhor da industrialização, e por isso goza de certa estabilidade econômica enquanto a Espanha é um dos países mais afetados pela crise.  
Nas próprias palavras de Monteiro, “na Checoslováquia, a separação da República Checa da Eslováquia também seguiu a ideia de mais ricos (checos) a deixarem mais pobres para trás (Eslováquia) e na Eslovênia o caso não foi muito diferente, quando se separou como país independente da Sérvia, a que historicamente estava ligada. Podem seguir-se a Escócia e a Flandres e assim se pode consagrar a decomposição de uma Europa que era para ser solidária, mas que aos poucos mostra a natureza de que sempre foi feita”. Assim, para ele a independência da Catalunha e prejudicial para Portugal e para a UE, pois isso pode levar ao enfraquecimento de todo o bloco europeu. Em um momento que deveria haver mais solidariedade dentro do Continente diante da crise,  há uma tentativa dos ricos abdicarem dos problemas dos mais carentes.
De acordo com a teoria construtivista de Emmanuel Adler e Alexander Wendt, os aspectos coletivos também são importantes nas tomadas de decisão de agentes, no qual aspectos cognitivos, ideias, crenças e interpretações normativas devem ser incorporadas ao pensamento racional e materialista que domina as principais teorias vigentes. Para os construtivistas, as instituições regionais tem o papel não só de contribuir economicamente para as populações, mas de criar também entendimentos coletivos, mudando o comportamento dos povos e dos Estados.
Monteiro exibe em sua reportagem que há históricos semelhantes ao do separatismo catalão, quando uma população mais rica não mais quer arcar com os custos de uma população mais pobre, como o caso da Tchecoslováquia. Mesmo assim, pela ideia do autor, há um senso de coletividade na Europa, quando se vê que o bem estar do bloco pode ser mais benéfico que rivalidades entre vizinhos. Apesar de ser apenas o ponto de vista do autor, percebemos que sua indignação pode ser consequência de uma cultura de pertencimento à região europeia criada a partir da constituição da integração econômica, mas que passa a atingir elementos cognitivos que vão além de condições materiais.

MONTEIRO, Henrique. A independência da Catalunha é uma má ideia. Disponível em: <http://expresso.sapo.pt/a-independencia-da-catalunha-e-uma-ma-ideia=f830180>. Acessado em 09 de setembro de 2013.



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